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A Quarta Onda: Inteligência Artificial, Segurança Nacional e a Nova Corrida Tecnológica

Por Luis Fernando Baptistella

1. Introdução

Alvin Toffler (1928-2016) foi um dos futuristas do século XX. Além de ensaios sobre avanços tecnológicos, escreveu o livro O Choque do Futuro, no ano de 1970.

Em seu livro de maior sucesso, A Terceira Onda (1980), Toffler organizou a história da humanidade não por séculos ou dinastias, mas por grandes “ondas” que representaram momentos de mudanças tecnológicas e sociais.

Para Toffler, uma "onda" ocorre quando uma nova tecnologia ou forma de produzir riqueza colide com a sociedade, transformando modelos econômicos, as relações interpessoais, a forma de produção cultural e até mesmo a maneira como vivemos. As três ondas que Toffler apresentou, resumidamente, foram:

1ª Onda: A Revolução Agrícola – Iniciada há cerca de 10 mil anos, representou a transição do nomadismo para o sedentarismo. Caracterizou-se pelo domínio da agricultura e do pastoreio, onde a terra era a principal fonte de riqueza e poder.

2ª Onda: A Revolução Industrial – iniciada no final do século XVIII (Inglaterra) e que dominou os séculos XIX e XX. Os motores da mudança foram: a máquina a vapor, os combustíveis fósseis e a produção em massa.

3ª Onda: A Era da Informação – emergiu na metade do século XX (década de 1950/1960), cujos motores da mudança foram: o computador, a internet, a biotecnologia.

Ao encerrarmos o primeiro quarto do século XXI, uma ferramenta tecnológica demonstra estar revolucionando o cotidiano da sociedade e, ao mesmo tempo, desafiando nada menos do que a própria inteligência humana: a Inteligência Artificial (IA).

Diante desse cenário, então, surge uma indagação: em que medida o comunicado emitido pelo Five Eyes sobre IA faz soar o alarme para uma quarta onda?

Seria o Mythos, da Anthropic, a corrente de vento que começa a agitar os “mares da tecnologia”, os mesmos que conectam as nações por meio de uma navegação entre bits e bytes?

2) A Inteligência e o alarme

Five Eyes significa a aliança existente entre as Agências de Inteligência dos seguintes países: Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos da América (EUA), e representa, em última instância, a extensão do antigo projeto Echelon (vide livro Contra & Inteligência, 2024, pág. 83).

Em 22/06/2026, agências de cibersegurança ligadas ao Five Eyes emitiram um comunicado conjunto que denotou ser um alerta quanto à rápida obsolescência dos recursos tradicionais de cibersegurança, indicando que o avanço dos modelos de IA de Fronteira pode reduzir significativamente a marcha do tempo em relação à validade de premissas que orientam a cibersegurança tradicional.

Segundo o Five Eyes, as alterações tecnológicas que anteriormente eram esperadas ao longo de anos poderão ocorrer em poucos meses, exigindo maior capacidade de adaptação por parte das organizações públicas e privadas.

Em síntese, Agências de Inteligência anunciaram que ferramentas de IA estão incorporando novas e mais potentes capacidades de encontrar e explorar vulnerabilidades, cada vez mais rapidamente. Ou seja, a marcha do tempo foi acelerada pela IA reduzindo a janela temporal entre o surgimento de uma vulnerabilidade e sua exploração prática.

O alerta baseia-se na rápida evolução dos modelos de IA, que demonstram capacidades para executar, com elevado grau de automação e velocidade, atividades que tradicionalmente exigiam equipes altamente especializadas. Entre elas destacam-se:

‒        o reconhecimento técnico de infraestruturas digitais, mediante o mapeamento automatizado de ativos físicos e serviços;

‒        a identificação e correlação de vulnerabilidades em softwares, sistemas operacionais e aplicações;

‒        a análise de grandes volumes de dados para identificação de padrões, anomalias e oportunidades de exploração; e

‒        a priorização de vetores de ataque e o apoio à tomada de decisão em operações defensivas ou ofensivas no domínio cibernético.

Tarefas que antes dependiam predominantemente de operadores dedicados passam a ser executadas com maior velocidade e escala por sistemas baseados em IA, que, entre outras capacidades, podem reduzir barreiras técnicas para agentes maliciosos, ampliando a velocidade, a automação e a complexidade das operações cibernéticas.

O cenário torna-se ainda mais complexo porque amplia a capacidade operacional tanto de grupos criminosos independentes ou de atores patrocinados por Estados, tornando os ataques mais frequentes, adaptáveis e difíceis de serem detectados.

Embora muitas das recomendações já integrem as boas práticas consolidadas da cibersegurança, tal como a sempre sugerida redução da superfície de ataque, o Five Eyes orienta para que as organizações adotem estratégias baseadas em resiliência operacional, partindo do pressuposto de que incidentes de segurança poderão ocorrer.

Entre as medidas sugeridas estão:

‒        incorporação da IA para as operações defensivas;

‒        modernização de infraestruturas legadas;

‒        cadência de patching;

‒        fortalecimento dos controles de acesso e a aplicação do princípio do menor privilégio; e

‒        aprimoramento das capacidades de detecção, contenção e resposta a incidentes.

O alerta também evidencia uma mudança na dinâmica da cibersegurança. Se, nas últimas décadas, a evolução das defesas ocorreu por meio de melhorias graduais, a IA tende a reduzir significativamente os ciclos de inovação, exigindo revisões mais frequentes das arquiteturas de segurança, dos processos de governança e das estratégias de gestão de riscos. Nesse contexto, a capacidade de adaptação contínua passa a ser um componente essencial da postura de segurança das organizações.

A terminologia IA de Fronteira tornou-se mundialmente reconhecida na Cúpula de Bletchley Park, em novembro de 2023, também conhecida como Artificial Intelligence Safety Summit. Segue-se a sua definição:

2.1 What do we mean by frontier AI models?

For the purposes of this paper, we define “frontier AI models” as highly capable foundation models2 that could exhibit sufficiently dangerous capabilities. Such harms could take the form of significant physical harm or the disruption of key societal functionson a global scale, resulting from intentional misuse or accident [25, 26]. It would be prudent to assume that next-generation foundation models could possess advanced enough capabilities to qualify as frontier AI models, given both the difficulty of predicting when sufficiently dangerous capabilities will arise and the already significant capabilities of today’s models.[1] (grifei)

3) Quem é Mythos 5?

O Mythos 5 é um modelo de IA de Fronteira desenvolvido pela empresa Anthropic, pertencendo à mesma linhagem e geração do Claude.

Enquanto o Claude Fable 5 é a versão comercial e distribuída para o público e empresas, o Claude Mythos 5, como "irmão gêmeo" do Fable 5, compartilha a mesma base de dados, porém com modificações especificamente para defesa técnica avançada.

O Mythos, como modelo de testes controlados, encontrava-se enclausurado dentro de uma sandbox, uma espécie de prisão digital. Ao operar fora dessa sandbox, em pouco tempo, o Mythos encontrou centenas de falhas em sistemas operacionais, tal como o OpenBSD, navegadores, vulnerabilidades zero-day em softwares, além de bugs no Linux, inconsistências essas antes desconhecidas pelas comunidades de cybersegurança.

Essas descobertas, segundo o governo norte-americano, foram entendidas como potencialmente graves à segurança nacional dos EUA, resultando, em 12/06/2025, na diretriz de controle de exportação do Departamento de Comércio dos EUA que exigiu a suspensão imediata do acesso aos dois modelos por qualquer cidadão estrangeiro, tanto fora quanto dentro dos EUA, incluindo os próprios funcionários estrangeiros da Anthropic.

Como consequência, a Anthropic informou que, diante da dificuldade operacional de verificar, em tempo real, a nacionalidade de todos os usuários, optou por desabilitar temporariamente os modelos para toda a sua base de clientes. Segundo a Anthropic, o governo norte-americano não apresentou detalhes técnicos sobre a preocupação de segurança. A empresa declarou entender que a decisão estaria relacionada à existência de um método capaz de contornar ("jailbreak") determinadas salvaguardas do modelo Fable 5, permitindo sua utilização para identificar vulnerabilidades de softwares.

Segundo a Anthropic, o Mythos 5 estava restrito a um conjunto limitado de organizações participantes do programa Project Glasswing, voltado para defesa cibernética e proteção de infraestruturas críticas.

A preocupação do governo norte-americano, em relação ao Mythos, seria decorrente do alerta de pesquisadores da Amazon que usaram prompts para fazer o Fable 5 fornecer informações supostamente proibidas e que poderiam auxiliar ciberataques.

Em suma, a determinação de suspensão, segundo o governo dos EUA, se deve ao potencial do modelo para acelerar a identificação de vulnerabilidades em softwares complexos, fortalecendo atividades defensivas, como auditorias de segurança e identificação preventiva de falhas. Entretanto, o mesmo modelo poderia ser empregado para apoiar agentes maliciosos a conduzirem operações ofensivas.

4) Reflexões críticas para a cybersegurança

Embora o comunicado do Five Eyes não mencione diretamente a Anthropic ou o Mythos, ambos os episódios convergem para uma mesma preocupação estratégica: o rápido aumento das capacidades ofensivas e defensivas proporcionadas pelos modelos de IA de Fronteira.

A metáfora da "quarta onda" parece ganhar consistência justamente porque os elementos disruptivos dessa transformação não decorrem apenas da evolução tecnológica em si, mas da velocidade com que os modelos de IA de Fronteira passam a alterar o equilíbrio entre ataque e defesa no domínio cibernético, com consequência diretas nas relações socioeconômicas.

A principal mensagem do comunicado é que modelos cada vez mais avançados tendem a acelerar a descoberta de vulnerabilidades, reduzir barreiras técnicas para agentes maliciosos e encurtar significativamente o ciclo de eficácia das arquiteturas tradicionais de cibersegurança.

O caso Mythos 5 da Anthropic representa um exemplo concreto para esse cenário de evolução tecnológica. Ao que tudo indica, em vez de tratar o risco apenas sob uma perspectiva teórica, o governo norte-americano passou a considerar determinados modelos de IA como ativos estratégicos, submetendo-os a mecanismos de controle compatíveis com tecnologias sensíveis de interesse para a segurança nacional, não distante do próprio espectro militar.

Sob essa perspectiva, os dois episódios (Five Eyes e Anthropic) sinalizam uma possível mudança de paradigma. A IA deixa de ser percebida apenas como uma ferramenta de inovação tecnológica e passa a integrar, de forma crescente e dual (civil e militar), as agendas de segurança nacional, governança tecnológica e competição estratégica entre Estados.

Não por acaso, CEOs de gigantes tecnológicas como o Google, OpenAI e a Anthropic estiveram presentes na última reunião do G7, realizada na cidade francesa de Évian-les-Bains, em junho de 2026, coincidentemente dias antes do comunicado das Agências de Inteligência. A ocasião foi marcada por uma deliberação conjunta voltada para o estabelecimento de diretrizes de governança para a IA, com ênfase na proteção de menores em plataformas online.

5) Conclusão parcial

Na medida em que essa nova onda tecnológica ganha forma, a atuação das Agências de Inteligência com projeção global, como o Five Eyes, torna ainda mais relevante o acompanhamento desse fenômeno sob a perspectiva da Inteligência Estratégica e da Contrainteligência Corporativa.

Até recentemente, as preocupações relacionadas à espionagem empresarial concentravam-se na proteção de pessoas, documentos, sistemas e redes. A rápida evolução dos modelos de IA, contudo, introduz uma nova categoria de ativo estratégico: a própria capacidade computacional de acelerar a identificação de vulnerabilidades, de ampliar a produção de conhecimentos técnicos especializados e de influenciar diretamente a vantagem competitiva de Estados e organizações privadas.

Nesse contexto, observa-se também o fortalecimento do que a Bravus Consultoria cita como sendo o Complexo Industrial da Inteligência (vide Contra & Inteligência, 2024, p. 104), caracterizado pela crescente integração entre governos, empresas de tecnologia, universidades, centros de pesquisa e organizações de defesa na disputa por capacidades críticas na Atividade de Inteligência e agora, mais do que nunca, em IA.

Se Alvin Toffler identificou três grandes ondas de transformação da civilização, os acontecimentos recentes sugerem que a IA poderá representar a força motriz de uma quarta onda, cujos efeitos extrapolam o ambiente tecnológico para alcançar a geopolítica, a segurança nacional e, por conseguinte, a contrainteligência corporativa.

Se essa interpretação estiver correta, talvez o alerta do Five Eyes não deva ser compreendido apenas como mais um Relatório de Inteligência (RELINT) sobre cibersegurança, mas como um dos primeiros sinais institucionais de que a IA inaugura uma nova fronteira de competição estratégica entre Estados, empresas e organizações.

Luis Fernando Baptistella

Capitão de Mar e Guerra (Vet.)

Diretor da Bravus Consultoria || Consultor em Inteligência e Contrainteligência

Autor dos livros Contra & Inteligência 4.0 e Counter & Intelligence 4.0

Pós-graduado em Inteligência Estratégica

Fontes consultadas:

https://www.cisa.gov/news-events/news/five-eyes-cyber-security-agencies-statement

Eric Geller - https://www.cybersecuritydive.com/news/ai-cyberattacks-five-eyes-frontier-models-warning/823526/

Pieter Arntz - https://www.malwarebytes.com/blog/ai/2026/06/claude-fable-5-and-mythos-5-abruptly-disabled-after-us-gov-deems-them-too-clever?utm_source=iterable&utm_medium=email&utm_campaign=b2c_pro_oth_20260622_juneweeklynewsletter_v4_178177982315&utm_content=Claude_logo

Bloqueios da Anthropic vieram após alerta da Amazon - CISO Advisor

Professor Danilo Gato - @odanilogato

Nota de Esclarecimento: Embora este artigo de opinião seja fundamentado nas referências citadas, o conceito de Quarta Onda, com base em Alvin Toffler, no que tange à Atividade de Inteligência e à Cybersegurança, é uma tese autoral desenvolvida pelo autor através de pesquisas e estudos próprios. Os direitos sobre esta metodologia/abordagem específica são reservados.

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